terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Negócio de menino.

 Negócio de menino.                                                                                                                                                                                                                                                                                                

Tem dez anos, é filho de um amigo, e nos encontramos na praia:
- Papai me disse que o senhor tem muito passarinho...
- Só tenho três.
- Tem coleira?
- Tenho um coleirinha.
- Virado?
- Virado.
- Muito velho?
- Virado há um ano.
- Canta?
- Uma beleza.
- Manso?
- Canta no dedo.
- O senhor vende?
- Vendo.
- Quanto?
- Dez contos.
Pausa. Depois volta:
- Só tem coleira?
- Tenho um melro e um curió.
- É melro mesmo ou é vira?
- É quase do tamanho de uma graúna.
- Deixa coçar a cabeça?
- Claro. Come na mão...
- E o curió?
- É muito bom curió.
- Por quanto o senhor vende?
- Dez contos.
Pausa.
- Deixa mais barato. . .
- Para você, seis contos.
- Com a gaiola?
- Sem a gaiola.
Pausa.
- E o melro?
- O melro eu não vendo.
- Como se chama?
- Brigitte.
- Uai, é fêmea?
- Não. Foi a empregada que botou o nome. Quando ela fala com ele, ele se arrepia todo, fica todo despenteado, então ela diz que é Brigitte.
Pausa.
- O coleira o senhor também deixa por seis contos?
- Deixo por oito contos.
- Com a gaiola?
- Sem a gaiola.
Longa pausa. Hesitação. A irmãzinha o chama de dentro d'água. E, antes de sair correndo, propõe, sem me encarar:
- O senhor não me dá um passarinho de presente, não? 


Rubem Braga.

Poema:¨"Um curió no meu coqueiro".

"Um curió no meu coqueiro" Melissa Luchi
Um curió pousado
Sobre as palmas de um coqueiro.
Eu olhava, admirava,
Pensando o que ele procuraria lá.
Lá no alto, entre ramos, cocos e tudo mais
Ele construía um ninho
Pra se proteger dos temporais.
Na mata procurava abrigo.

Infelizmente não achou.
No coqueiro do meu jardim
Entendi o que ele ansiou.
Nas tardes de calmaria,
Ele descia e colhia folhas secas,
Ramos, galhos e muito amor.
Eu olhava, admirava da janela.
Tentando entender que "coisinha" era aquela.
Corria, eu via seu vulto.
Voava na imensidão do meu céu,
Sim, era meu céu; meu jardim.
Ele regava minhas flores,
Espalhava alegria em mil cores
Que eu só encontrei quando cheguei ali.
Hoje, filhotes já crescidos,
Espalham novas fragrâncias pelo ar.
Eu despercibidamente acompanhara
Uma melodia que me ensinara,
O verdadeiro sentido de amar.

Vídeo: Curió canto Florianópolis.

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